A Polícia Federal já encaminhou ao STF pedido de investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e Willer Tomaz — amigo, advogado e dono de bet que movimentou bilhões; voos do candidato na Europa foram pagos por offshore do ramo de apostas
Contexto
A menos de duas semanas do segundo turno, a Polícia Federal
encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de investigação sobre
suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o candidato à Presidência Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz de Sousa, investigado no esquema de
descontos indevidos em aposentadorias do INSS — a chamada Operação Sem
Desconto. A informação foi publicada na segunda-feira (19) pela Gazeta do
Paraná e corrobora reportagens das últimas semanas do UOL, Folha de S.Paulo e
Estadão. O documentário “Revelando: O Laranjal”, apresentado por Fábio Porchat,
sistematizou a teia de relações — e o SOL DO CARAJÁS cruzou cada alegação com o
que já foi publicado pela grande imprensa. Eis o que se sabe até aqui.
OS E-MAILS: FLÁVIO COMO “USUÁRIO MASTER” EM CONTA
DE EMPRESA DE WILLER
O elo central foi revelado pelo jornalista Fábio Serapião, do UOL,
em 10 de outubro: e-mails encontrados pela PF no iCloud do próprio Willer Tomaz
indicam que Flávio Bolsonaro dividia uma conta bancária no Santander com o
advogado.
A conta era da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira
(Portugal), da qual Willer é sócio. Flávio Bolsonaro estava cadastrado como
“usuário master” — nível elevado de acesso e gerenciamento do dinheiro. Em 22
de maio de 2025, um mês após a primeira fase da Operação Sem Desconto, a
funcionária do escritório de Willer, Fayla Zulmira Menezes, enviou e-mail ao
Santander pedindo a desassociação da conta “Flávio Bolsonaro” do usuário master
— e o banco confirmou a exclusão no mesmo dia. Em relatório revelado pela
jornalista Malu Gaspar (O Globo), a PF escreveu que o acesso de Flávio à conta
sustenta “a hipótese de uma participação societária de fato” — o sócio que não
aparece no contrato.
O que dizem os envolvidos:
a assessoria de Flávio afirma que ele “nunca
manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas
empresas” e que o e-mail prova que o cadastro era indevido. Willer nega ter
compartilhado conta: “Não existe e-mail de minha parte e não existe essa
conta.”
WILLER TOMAZ: QUEM É O ADVOGADO DAS BETS
Willer é um advogado criminalista de Brasília, amigo declarado de
Flávio (“as nossas esposas são amigas, nossos filhos são amigos”). Ele é alvo
da Operação Sem Desconto por suspeita de funcionar como “central financeira e
patrimonial de políticos” — empresas que movimentam dinheiro, pagam despesas e
administram bens de terceiros sem que eles apareçam como donos.
Os números sobre apostas, publicados por veículos diferentes, variam
— e é importante registrar a discrepância:
|
Fonte |
Movimentação em bets |
|
UOL (30/09) |
R$ 6,6 bilhões
apostados em 18 meses (jan/2025 a jul/2026), segundo documentos da própria
defesa; prejuízo declarado de R$ 188,5 milhões |
|
Folha (30/09) |
mais de 2.145
depósitos somando R$ 325 milhões e ~3.000 saques somando R$ 180 milhões na
Blaze |
|
Revista Fórum
/ Jornal do Brasil |
movimentação
de até R$ 13 bilhões em bets; perda de R$ 163 milhões em 2025 numa única
plataforma |
|
CPMI do INSS
(Senado) |
análise de
RIFs do Coaf aponta que Willer movimentou R$ 45,5 milhões em transações
atípicas |
O ESQUEMA DO INSS: DINHEIRO DE APOSENTADO
O pano de fundo é a fraude contra aposentados: associações de
benefícios firmavam convênios com o INSS para cobrar mensalidades diretamente
da aposentadoria — sem autorização do segurado, com assinaturas falsas,
autorizações inventadas e até voz falsificada. Em cinco anos, mais de R$ 6
bilhões foram descontados sem consentimento. O aposentado nem sabia que era
“associado”.
A PF aponta como centro do esquema o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, preso desde setembro de 2025, e seu contador Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro. E aqui o documentário expõe as coincidências que a PF investiga:
- Alexandre Caetano dos Reis é o contador do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (aberto em 2021).
- A irmã dele, Letícia Caetano dos Reis, administra o escritório de Flávio desde 16/04/2021 — e disse à Agência Pública que chegou lá por indicação de Willer (fato confirmado em documento oficial da CPMI do INSS no Senado).
- Willer defende o contador preso na Justiça.
- A Bravo Grafeno (fábrica de capacetes de Flávio e do irmão Carlos) está registrada numa sala em Águas Claras (DF) onde também estão registradas pelo menos 16 empresas ligadas ao “careca”.
- A empresa do careca também fez repasse de ~R$ 1 milhão a uma lobista ligada a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — que é investigado em três inquéritos no STF, mas não foi citado no relatório da PF que indiciou o careca nem indiciado/denunciado (a própria PF, em relatório de setembro, diz não haver indícios de envolvimento direto dele nos descontos).
Importante: até hoje não há investigação formal aberta contra Flávio no caso do INSS. Os elos acima são apontados pela imprensa e pela CPMI como indícios a serem apurados, não como conclusão.
O “LARANJAL”: A DOMÉSTICA QUE PRESIDE 14 EMPRESAS
O documentário e a investigação do ICL apontam o padrão de
interpostas pessoas: Lídia Mazelli, 61 anos, aparece formalmente no comando de
14 empresas ligadas a Willer — incluindo a WT, que ficou com a mansão de Angra
dos Reis. Quando a repórter bateu na porta, Lídia respondeu: “Não, eu sou
doméstica aqui”. A WT também é dona da casa do senador, segundo o documentário.
O jogador Richarlison reclamou publicamente no Instagram que perdeu na Justiça
uma ilha em que investiu ~R$ 10 milhões, após suposta disputa envolvendo Flávio
e Willer: “Flávio Bolsonaro e o tal do Willer Tomaz foi lá e em 24 horas
pegaram a posse... Eu não recebi nada”.
A REDE VORCARO–KASSIO–WILLER
O “laranjal” se entrelaça com o caso do Banco Master que o SOL DO CARAJÁS já cobriu: a mesma empresa de Willer (Alcazar) aparece em sociedade com empresas ligadas a Daniel Vorcaro (jato executivo, mansão em Angra, apartamento em SP); Vorcaro está preso; e o ministro Kassio Nunes Marques — que hoje preside o TSE, justamente a corte que conduz esta eleição — é citado nas mensagens. Todas essas alegações seguem em apuração, com negativas dos citados.
O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS (NEGATIVAS)
|
Envolvido |
Posição |
|
Flávio
Bolsonaro |
Nega conta
conjunta com Willer; classifica informações como falsas; diz que são apenas
amigos |
|
Willer Tomaz |
Nega conta
compartilhada, vínculo societário oculto com a Blaze e relação financeira
irregular com o senador |
|
Assessoria de
Flávio |
“Nunca manteve
conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas
empresas” |
|
Willer (sobre
os voos) |
Alega
ludopatia; defesa diz que movimentações foram por Pix e rastreáveis |
______________________
NOTA EDITORIAL: Este texto distingue fatos já publicados por veículos consolidados (existência dos e-mails, pedido da PF ao STF, voos pagos por offshore, documentos da CPMI) de hipóteses investigativas e alegações do documentário (participação societária oculta, uso das bets para lavagem). Todos os citados gozam de presunção de inocência e negam as acusações. Não há, até o momento, denúncia formal contra Flávio Bolsonaro. O SOL DO CARAJÁS acompanhará a decisão do STF sobre o pedido da PF e a tramitação da CPMI do INSS.
FONTES: UOL (10 e 30/09 e 10/10), Folha de S.Paulo (10 e 15/10), Estadão
(10/10), Jornal do Brasil (10/10), Revista Fórum (10/10), Gazeta do Paraná
(19/10), Opera Mundi (16/10), documento da CPMI do INSS (Senado Federal) e
documentário “Revelando — O Laranjal”.
SOL
DO CARAJÁS — Jornalismo Investigativo | Parauapebas/PA | Documento elaborado em
21 de outubro de 2026.






