Cinco anos e sete meses após a morte de Ana Clara Gomes Machado, o policial militar acusado de disparar o fuzil segue em liberdade e o júri popular nunca aconteceu. O senador e candidato à Presidência integrou a defesa do réu em 2024 e tentou reverter a decisão que o levaria a julgamento.
Assassinada com tiro de fuzil
A morte de Ana Clara Gomes Machado, de 5
anos, voltou ao centro do debate presidencial brasileiro. A menina foi atingida
por um tiro de fuzil na manhã de 2 de fevereiro de 2021, quando brincava na
porta de casa na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, na Região Metropolitana
do Rio de Janeiro. Mais de cinco anos e sete meses depois, o policial militar
acusado pelo disparo segue em liberdade e o julgamento pelo Tribunal do Júri
nunca ocorreu. O caso ganhou nova repercussão após o debate presidencial da Band,
realizado no domingo (18), e a circulação do documentário "O Julgamento
que Nunca Aconteceu", da série "Revelando", apresentado por
Camila Pitanga.
O fato
Ana Clara tinha acabado de acordar.
Brincava na porta de casa com o irmão mais novo quando foi atingida por
disparos de fuzil. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o
disparo fatal partiu da arma do cabo Bruno Dias Delaroli, integrante do 12º
Batalhão da Polícia Militar. O agente foi denunciado por homicídio doloso —
quando há intenção de matar ou se assume o risco de provocar a morte.
Delaroli foi preso em flagrante, mas passou
a responder ao processo em liberdade a partir de novembro de 2021. Desde então,
aguarda julgamento em liberdade.
A perícia que derruba a tese de
confronto
A defesa do policial sustenta que houve
confronto: Delaroli teria sido recebido por cinco homens, dois deles armados
com pistolas. A perícia da Polícia Civil, porém, chegou ao local pouco depois
do crime, com a PM ainda presente, e encontrou apenas munição de calibre 7,62
mm — o mesmo calibre do fuzil do policial. Nenhuma munição de pistola foi
localizada.
Um morador que presenciou a cena relatou
que os policiais só socorreram Ana Clara, que sangrava no chão, após muita
insistência, e que tentaram alterar a cena do crime. A perícia da arma
confirmou que o projétil que atingiu a menina partiu do fuzil de Delaroli.
A entrada de Flávio Bolsonaro no
processo
Em 2024, o então deputado e hoje senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, passou a
integrar a equipe de defesa de Delaroli. O momento é preciso: a defesa havia
acabado de perder no Superior Tribunal de Justiça (STJ) uma tentativa de anular
a decisão que mandava o policial a júri popular.
Foi depois dessa derrota que Flávio
apareceu no processo, assinando de próprio punho um novo recurso para reverter
a determinação. A equipe jurídica apresentou outras medidas, mas o STJ negou o
pedido e a decisão de submeter Delaroli ao júri foi mantida. Segundo reportagem
do jornal Bem Paraná, o processo transitou em julgado em agosto de 2025 e não
cabe mais recurso contra a ida do PM a júri.
A atuação se deu no exercício da advocacia.
A Constituição Federal assegura a qualquer pessoa acusada de um crime o direito
à ampla defesa, incluindo a possibilidade de contestar decisões e apresentar
recursos à Justiça. Não há, até aqui, decisão judicial que impute
irregularidade à conduta do senador nesse caso.
O júri que nunca aconteceu
Mais de cinco anos após a morte de Ana
Clara, o julgamento ainda não havia ocorrido até outubro de 2026. A previsão
atual, segundo a família, é 5 de maio de 2027. O caso já teve o júri adiado
duas vezes.
O documentário revelando a verdade
O episódio "O Julgamento que Nunca Aconteceu", da série "Revelando", vai além do caso Ana Clara e constrói uma tese: a de que julgamentos de policiais no Rio não travam por lentidão, mas por ação deliberada de gente com poder:
- Adriano da Nóbrega: Flávio teria entregado a maior honraria da Assembleia Legislativa do Rio (Medalha Tiradentes) ao tenente do Bope enquanto ele estava preso, acusado de homicídio. A mulher de Adriano teria passado 11 anos empregada no gabinete de Flávio, e a mãe, dois anos e meio — saíram um mês após a eleição dele ao Senado.
- Patrícia Acioli: após o assassinato da juíza (21 tiros, agosto de 2011), Flávio teria escrito que a forma como ela "humilhava policiais" contribuiu para ela ter inimigos.
- Marielle Franco: o documentário afirma que Robson Calixto, o "Peixe" — apontado como quem apresentou os executores aos mandantes — pediu ajuda a uma secretária parlamentar e que, no mês seguinte, saiu uma emenda de quase R$ 200 mil para um projeto de futebol infantil na Taquara, com recursos posteriormente apontados como desviados.
- Outras defesas: Flávio assinaria ainda a defesa de dois acusados no esquema do "Faraó dos Bitcoins" e de outros policiais acusados de homicídio.
- Dado estrutural: entre 2007 e 2022, o Rio teria registrado 629 chacinas cometidas por policiais — e apenas duas viraram denúncia. Das 27 maiores (oito mortos ou mais), nenhuma chegou ao fim do julgamento.
A voz da mãe
O trecho mais forte do documentário é o
depoimento da mãe de Ana Clara, que teve a filha aos 15 anos:
"Ela
que me ensinou a ter maturidade, ela que me ensinou a ser mãe, ela me ensinou a
trocar fralda, ela me ensinou tudo. Ela foi a luz da minha vida."
Sobre o julgamento:
"Foi
adiado duas vezes esse ano. Me falaram que vai ser só dia 5 de maio de
2027."
Sobre a defesa:
"É
surreal acreditar como uma pessoa querendo ser presidente do Brasil defende um
cara sem escrúpulo nenhum. Ele tentou anular o júri do cara que matou minha
filha."
Sobre o medo:
"Do
Flávio vir como presidente e a justiça pela vida da minha filha não ser feita.
Ele sem ser presidente já está fazendo o que está fazendo."
O contexto político
O caso foi mencionado por Lula durante o
primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela Band no domingo
(18). O presidente cobrou explicações do adversário sobre a defesa do policial,
em meio a uma troca de acusações sobre segurança pública. Flávio defendeu a
advocacia como atividade legítima.
Na manhã de segunda-feira (19), o termo
"flavio bolsonaro caso ana clara" liderou os assuntos mais
pesquisados do Brasil no Google Trends, com mais de 1 milhão de buscas em 24
horas.





