Nos dez municípios que mais geram ou recebem Compensação Financeira pela Exploração Mineral em Minas Gerais, Lula venceu em nove e teve média de 55,45%. Nos dez do Pará, Flávio Bolsonaro venceu em sete e teve média de 55,66%. A inversão de 22,3 pontos entre dois estados mineradores revela que o voto não segue o minério — segue a estrutura social que a mineração produz
A mesma mineração
Dois estados. A mesma atividade econômica dominante. Resultados opostos. Quando se olha para os municípios que mais geram ou recebem Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) em Minas Gerais e no Pará, o segundo turno de 2026 desenha um dos contrastes regionais mais nítidos da eleição — e desmonta a leitura fácil de que mineração e voto caminham juntos. O SOL DO CARAJÁS cruzou o ranking histórico de arrecadação da Agência Nacional de Mineração (ANM) com os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos vinte municípios que lideram a CFEM nos dois estados. O que emerge não é uma correlação entre royalty e voto, mas um retrato geográfico-eleitoral em que a estrutura social de cada território minerador explica mais do que a atividade mineral em si.
MINAS GERAIS: O QUADRILÁTERO FERRÍFERO VOTOU À ESQUERDA
Nos dez municípios mineiros
que mais geram ou recebem CFEM, Lula venceu em nove. A média do candidato do PT
foi de 55,45%, contra 44,55% de Flávio Bolsonaro — uma vantagem de 10,9 pontos
percentuais.
|
Ranking |
Município (MG) |
Lula |
Flávio |
Vantagem |
|
1 |
Conceição do Mato Dentro |
65,40% |
34,60% |
Lula +30,80 |
|
2 |
Congonhas |
53,41% |
46,59% |
Lula +6,82 |
|
3 |
Nova Lima |
51,67% |
48,33% |
Lula +3,34 |
|
4 |
Mariana |
67,98% |
32,02% |
Lula +35,96 |
|
5 |
Itabira |
55,35% |
44,65% |
Lula +10,70 |
|
6 |
Itabirito |
52,49% |
47,51% |
Lula +4,98 |
|
7 |
São Gonçalo do Rio Abaixo |
53,99% |
46,01% |
Lula +7,98 |
|
8 |
Ouro Preto |
69,29% |
30,71% |
Lula +38,58 |
|
9 |
Paracatu |
39,43% |
60,57% |
Flávio +21,14 |
|
10 |
Barão de Cocais |
55,45% |
44,55% |
Lula +10,90 |
O padrão é claro: os
municípios do Quadrilátero Ferrífero — Ouro Preto, Mariana, Conceição do Mato
Dentro, Itabira, Itabirito, Nova Lima, Congonhas, São Gonçalo do Rio Abaixo e
Barão de Cocais — formam um bloco sólido de votação à esquerda. Ouro Preto (69,29%)
e Mariana (67,98%) registram os dois melhores desempenhos de Lula em todo o
recorte.
A exceção é Paracatu, no
Noroeste mineiro: 60,57% para Flávio. É o único município do ranking que não
pertence ao Quadrilátero — é um polo de mineração de ouro com economia
fortemente ligada ao agronegócio, e votou como o restante da região.
PARÁ: CARAJÁS E TAPAJÓS VOTARAM À DIREITA. POLO DA BAUXITA VOTA COM LULA
No Pará, o quadro se
inverte. Nos dez municípios que lideram a CFEM, Flávio venceu em sete. A média
dele foi de 55,66%, contra 44,34% de Lula — vantagem de 11,3 pontos.
|
Ranking |
Município
(PA) |
Lula |
Flávio |
Vantagem |
|
1 |
Canaã dos Carajás |
37,04% |
62,96% |
Flávio +25,92 |
|
2 |
Parauapebas |
40,39% |
59,61% |
Flávio +19,22 |
|
3 |
Marabá |
45,40% |
54,60% |
Flávio +9,20 |
|
4 |
Curionópolis |
43,15% |
56,85% |
Flávio +13,70 |
|
5 |
Itaituba |
31,27% |
68,73% |
Flávio +37,46 |
|
6 |
Paragominas |
41,34% |
58,66% |
Flávio +17,32 |
|
7 |
Juruti |
60,92% |
39,08% |
Lula +21,84 |
|
8 |
Terra Santa |
53,84% |
46,16% |
Lula +7,68 |
|
9 |
Água Azul do Norte |
35,04% |
64,96% |
Flávio +29,92 |
|
10 |
Oriximiná |
55,19% |
44,81% |
Lula +10,38 |
Aqui, porém, o padrão não é
uniforme — e é justamente aí que está a chave da análise. O Pará se divide em
duas geografias mineradoras distintas.
O polo de Carajás e o
Tapajós — Canaã dos Carajás (62,96% Flávio), Parauapebas (59,61%), Água Azul do
Norte (64,96%), Curionópolis (56,85%), Marabá (54,60%), Paragominas (58,66%) e
Itaituba (68,73%) — deu vitórias expressivas ao candidato do PL. São territórios
de minério de ferro e garimpo, com economia de enclave, população flutuante
atraída pelo emprego industrial e forte presença de empresas privadas.
O polo da bauxita no oeste
— Juruti (60,92% Lula), Oriximiná (55,19%) e Terra Santa (53,84%) — deu vitória
a Lula nos três. São municípios de mineração de bauxita com populações
ribeirinhas e quilombolas, histórico de conflitos fundiários e uma relação com
a atividade mineral marcada por disputa territorial, não por emprego
industrial.
Somados, os dois estados
produzem o dado central desta análise: nos municípios mineradores de Minas,
Lula tem média 10,9 pontos acima de Flávio; nos do Pará, Flávio tem média 11,3
pontos acima de Lula. A inversão entre os dois estados é de 22,3 pontos percentuais.
Dois territórios com a
mesma atividade econômica dominante, o mesmo tipo de royalty e a mesma lógica
de compensação financeira — e resultados eleitorais diametralmente opostos. A
mineração, por si só, não explica o voto.
O QUE EXPLICA
O que os dados sugerem é
que o voto acompanha a estrutura social que a mineração produz em cada lugar,
não a mineração em abstrato.
Minas Gerais: mineração
centenária, cidades consolidadas, forte presença de servidores públicos,
universidades e uma tradição política organizada. O Quadrilátero Ferrífero tem
mais de três séculos de história urbana e uma sociedade civil estruturada.
Carajás: mineração recente
(décadas de 1980 em diante), economia de enclave, cidades que cresceram em
torno do emprego industrial, população migrante e menor densidade de
instituições civis.
Oeste do Pará: mineração de
bauxita em territórios ribeirinhos e quilombolas, onde a atividade mineral é
vivida como pressão sobre terra e território — o que produz uma politização
distinta.
O CASO DE PARAUAPEBAS
Parauapebas merece nota
própria porque aparece nas duas pontas desta análise. No ranking da CFEM, é o
2º maior do Pará, com Flávio em 59,61%. Mas foi também o município onde Lula
teve o maior crescimento do estado entre os turnos: +21,92%, de 51.646 para
62.968 votos.
Ou seja: Flávio venceu com
folga, mas Lula cresceu três vezes mais. A vantagem adversária caiu de 37.598
para 29.950 votos — redução de exatamente 7.648, o mesmo valor da diferença
entre os crescimentos dos dois candidatos. É um município onde o campo bolsonarista
ainda é majoritário, mas está perdendo terreno mais rápido do que em qualquer
outro lugar do Pará.
CONCEÇÃO DO MATO DENTRO/MG E PARAUAPEBAS
No segundo turno, clivando apenas o percentual dos votos válidos, o crescimento de cada candidato, as cidades convergiram na direção da reeleição do presidente Lula, embora o resultado final ainda aponta para cenários opostos.
O QUE OS DADOS NÃO PROVAM
É preciso ser direto sobre
o limite desta análise: não existe relação causal demonstrada entre receber
CFEM e votar em um ou outro candidato.
O que os números mostram é
uma correlação geográfica — municípios mineradores de Minas e do Pará votaram
de formas opostas, e dentro do Pará há uma clivagem regional clara entre
Carajás e o oeste da bauxita. Atribuir o voto à mineração seria simplificar:
fatores como estrutura fundiária, presença de servidores públicos, composição
populacional, tempo de ocupação e atuação de lideranças locais explicam mais do
que o royalty em si.
A CFEM é aqui um recorte de seleção — um critério para olhar municípios com uma característica econômica comum — e não uma variável explicativa. Tratar correlação como causa seria o erro que esta reportagem evita.
NOTA METODOLÓGICA: os percentuais
de votação são de votos válidos do 2º turno da Eleição Geral Ordinária de 2026,
conforme os painéis oficiais do TSE. O ranking de municípios segue os
consolidados de arrecadação e repasse da CFEM da Agência Nacional de Mineração,
considerando os dez maiores de cada estado. As médias por estado são
aritméticas simples dos dez municípios listados. A classificação regional dos
municípios segue a divisão do IBGE. As interpretações sobre estrutura social e
clivagem territorial são análise editorial deste portal, não conclusão
estatística.
FONTES: TSE — Resultados Oficiais, Eleição Geral Ordinária 2026 (2º
turno); ANM — consolidados de arrecadação da CFEM; IBGE — divisão regional.




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