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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A geografia do voto nos municípios da CFEM: por que Minas e Pará votaram em direções opostas

Nos dez municípios que mais geram ou recebem Compensação Financeira pela Exploração Mineral em Minas Gerais, Lula venceu em nove e teve média de 55,45%. Nos dez do Pará, Flávio Bolsonaro venceu em sete e teve média de 55,66%. A inversão de 22,3 pontos entre dois estados mineradores revela que o voto não segue o minério — segue a estrutura social que a mineração produz

A mesma mineração 

Dois estados. A mesma atividade econômica dominante. Resultados opostos. Quando se olha para os municípios que mais geram ou recebem Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) em Minas Gerais e no Pará, o segundo turno de 2026 desenha um dos contrastes regionais mais nítidos da eleição — e desmonta a leitura fácil de que mineração e voto caminham juntos. O SOL DO CARAJÁS cruzou o ranking histórico de arrecadação da Agência Nacional de Mineração (ANM) com os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nos vinte municípios que lideram a CFEM nos dois estados. O que emerge não é uma correlação entre royalty e voto, mas um retrato geográfico-eleitoral em que a estrutura social de cada território minerador explica mais do que a atividade mineral em si.

MINAS GERAIS: O QUADRILÁTERO FERRÍFERO VOTOU À ESQUERDA

Nos dez municípios mineiros que mais geram ou recebem CFEM, Lula venceu em nove. A média do candidato do PT foi de 55,45%, contra 44,55% de Flávio Bolsonaro — uma vantagem de 10,9 pontos percentuais.

Ranking

Município (MG)

Lula

Flávio

Vantagem

1

Conceição do Mato Dentro

65,40%

34,60%

Lula +30,80

2

Congonhas

53,41%

46,59%

Lula +6,82

3

Nova Lima

51,67%

48,33%

Lula +3,34

4

Mariana

67,98%

32,02%

Lula +35,96

5

Itabira

55,35%

44,65%

Lula +10,70

6

Itabirito

52,49%

47,51%

Lula +4,98

7

São Gonçalo do Rio Abaixo

53,99%

46,01%

Lula +7,98

8

Ouro Preto

69,29%

30,71%

Lula +38,58

9

Paracatu

39,43%

60,57%

Flávio +21,14

10

Barão de Cocais

55,45%

44,55%

Lula +10,90

O padrão é claro: os municípios do Quadrilátero Ferrífero — Ouro Preto, Mariana, Conceição do Mato Dentro, Itabira, Itabirito, Nova Lima, Congonhas, São Gonçalo do Rio Abaixo e Barão de Cocais — formam um bloco sólido de votação à esquerda. Ouro Preto (69,29%) e Mariana (67,98%) registram os dois melhores desempenhos de Lula em todo o recorte.

A exceção é Paracatu, no Noroeste mineiro: 60,57% para Flávio. É o único município do ranking que não pertence ao Quadrilátero — é um polo de mineração de ouro com economia fortemente ligada ao agronegócio, e votou como o restante da região.


PARÁ: CARAJÁS E TAPAJÓS VOTARAM À DIREITA. POLO DA BAUXITA VOTA COM LULA

No Pará, o quadro se inverte. Nos dez municípios que lideram a CFEM, Flávio venceu em sete. A média dele foi de 55,66%, contra 44,34% de Lula — vantagem de 11,3 pontos.

Ranking

Município (PA)

Lula

Flávio

Vantagem

1

Canaã dos Carajás

37,04%

62,96%

Flávio +25,92

2

Parauapebas

40,39%

59,61%

Flávio +19,22

3

Marabá

45,40%

54,60%

Flávio +9,20

4

Curionópolis

43,15%

56,85%

Flávio +13,70

5

Itaituba

31,27%

68,73%

Flávio +37,46

6

Paragominas

41,34%

58,66%

Flávio +17,32

7

Juruti

60,92%

39,08%

Lula +21,84

8

Terra Santa

53,84%

46,16%

Lula +7,68

9

Água Azul do Norte

35,04%

64,96%

Flávio +29,92

10

Oriximiná

55,19%

44,81%

Lula +10,38


Aqui, porém, o padrão não é uniforme — e é justamente aí que está a chave da análise. O Pará se divide em duas geografias mineradoras distintas.

O polo de Carajás e o Tapajós — Canaã dos Carajás (62,96% Flávio), Parauapebas (59,61%), Água Azul do Norte (64,96%), Curionópolis (56,85%), Marabá (54,60%), Paragominas (58,66%) e Itaituba (68,73%) — deu vitórias expressivas ao candidato do PL. São territórios de minério de ferro e garimpo, com economia de enclave, população flutuante atraída pelo emprego industrial e forte presença de empresas privadas.

O polo da bauxita no oeste — Juruti (60,92% Lula), Oriximiná (55,19%) e Terra Santa (53,84%) — deu vitória a Lula nos três. São municípios de mineração de bauxita com populações ribeirinhas e quilombolas, histórico de conflitos fundiários e uma relação com a atividade mineral marcada por disputa territorial, não por emprego industrial.


A INVERSÃO DE 22,3 PONTOS

Somados, os dois estados produzem o dado central desta análise: nos municípios mineradores de Minas, Lula tem média 10,9 pontos acima de Flávio; nos do Pará, Flávio tem média 11,3 pontos acima de Lula. A inversão entre os dois estados é de 22,3 pontos percentuais.

Dois territórios com a mesma atividade econômica dominante, o mesmo tipo de royalty e a mesma lógica de compensação financeira — e resultados eleitorais diametralmente opostos. A mineração, por si só, não explica o voto.

O QUE EXPLICA

O que os dados sugerem é que o voto acompanha a estrutura social que a mineração produz em cada lugar, não a mineração em abstrato.

Minas Gerais: mineração centenária, cidades consolidadas, forte presença de servidores públicos, universidades e uma tradição política organizada. O Quadrilátero Ferrífero tem mais de três séculos de história urbana e uma sociedade civil estruturada.

Carajás: mineração recente (décadas de 1980 em diante), economia de enclave, cidades que cresceram em torno do emprego industrial, população migrante e menor densidade de instituições civis.

Oeste do Pará: mineração de bauxita em territórios ribeirinhos e quilombolas, onde a atividade mineral é vivida como pressão sobre terra e território — o que produz uma politização distinta.

O CASO DE PARAUAPEBAS

Parauapebas merece nota própria porque aparece nas duas pontas desta análise. No ranking da CFEM, é o 2º maior do Pará, com Flávio em 59,61%. Mas foi também o município onde Lula teve o maior crescimento do estado entre os turnos: +21,92%, de 51.646 para 62.968 votos.

Ou seja: Flávio venceu com folga, mas Lula cresceu três vezes mais. A vantagem adversária caiu de 37.598 para 29.950 votos — redução de exatamente 7.648, o mesmo valor da diferença entre os crescimentos dos dois candidatos. É um município onde o campo bolsonarista ainda é majoritário, mas está perdendo terreno mais rápido do que em qualquer outro lugar do Pará.

CONCEÇÃO DO MATO DENTRO/MG E PARAUAPEBAS

A distância é de 2.220 quilômetros. Parauapebas, no sudeste do Pará, e Conceição do Mato Dentro, no interior de Minas Gerais, estão em extremos opostos do país, mas compartilham algo além da lonjura: ambas são atravessadas pela mesma lógica do minério de ferro, que sustenta parte relevante de suas economias. Se a atividade econômica bastasse para explicar o comportamento do eleitor, as duas cidades deveriam ter chegado ao mesmo porto nas eleições de 2026. Não foi o que aconteceu.

No Brasil, a economia explica parte do voto, mas não o voto inteiro: Parauapebas/PA e Conceição do Mato Dentro/MG.

A mineração de ferro é, nas duas, vetor de emprego, arrecadação e disputa política local. Os números finais sugerem que o eleitorado respondeu a estímulos que vão além da cadeia produtiva: a força das máquinas políticas municipais, a presença do Estado na vida cotidiana, a memória de políticas públicas e a própria identidade política de cada território. O minério, que impulsiona a economia, não conseguiu — sozinho — explicar a geografia do voto.


No segundo turno, clivando apenas o percentual dos votos válidos, o crescimento de cada candidato, as cidades convergiram na direção da reeleição do presidente Lula, embora o resultado final ainda aponta para cenários opostos.

O QUE OS DADOS NÃO PROVAM

É preciso ser direto sobre o limite desta análise: não existe relação causal demonstrada entre receber CFEM e votar em um ou outro candidato.

O que os números mostram é uma correlação geográfica — municípios mineradores de Minas e do Pará votaram de formas opostas, e dentro do Pará há uma clivagem regional clara entre Carajás e o oeste da bauxita. Atribuir o voto à mineração seria simplificar: fatores como estrutura fundiária, presença de servidores públicos, composição populacional, tempo de ocupação e atuação de lideranças locais explicam mais do que o royalty em si.

A CFEM é aqui um recorte de seleção — um critério para olhar municípios com uma característica econômica comum — e não uma variável explicativa. Tratar correlação como causa seria o erro que esta reportagem evita.

NOTA METODOLÓGICA: os percentuais de votação são de votos válidos do 2º turno da Eleição Geral Ordinária de 2026, conforme os painéis oficiais do TSE. O ranking de municípios segue os consolidados de arrecadação e repasse da CFEM da Agência Nacional de Mineração, considerando os dez maiores de cada estado. As médias por estado são aritméticas simples dos dez municípios listados. A classificação regional dos municípios segue a divisão do IBGE. As interpretações sobre estrutura social e clivagem territorial são análise editorial deste portal, não conclusão estatística.

FONTES: TSE — Resultados Oficiais, Eleição Geral Ordinária 2026 (2º turno); ANM — consolidados de arrecadação da CFEM; IBGE — divisão regional.