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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O laranjal de Flávio Bolsonaro: e-mails da PF ligam candidato a conta conjunta com advogado investigado na fraude do INSS. Quadrilha tem laços com Kássio Nunes, presidente do TSE

A Polícia Federal já encaminhou ao STF pedido de investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e Willer Tomaz — amigo, advogado e dono de bet que movimentou bilhões; voos do candidato na Europa foram pagos por offshore do ramo de apostas

Contexto

A menos de duas semanas do segundo turno, a Polícia Federal encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz de Sousa, investigado no esquema de descontos indevidos em aposentadorias do INSS — a chamada Operação Sem Desconto. A informação foi publicada na segunda-feira (19) pela Gazeta do Paraná e corrobora reportagens das últimas semanas do UOL, Folha de S.Paulo e Estadão. O documentário “Revelando: O Laranjal”, apresentado por Fábio Porchat, sistematizou a teia de relações — e o SOL DO CARAJÁS cruzou cada alegação com o que já foi publicado pela grande imprensa. Eis o que se sabe até aqui.

 

OS E-MAILS: FLÁVIO COMO “USUÁRIO MASTER” EM CONTA DE EMPRESA DE WILLER

O elo central foi revelado pelo jornalista Fábio Serapião, do UOL, em 10 de outubro: e-mails encontrados pela PF no iCloud do próprio Willer Tomaz indicam que Flávio Bolsonaro dividia uma conta bancária no Santander com o advogado.

A conta era da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira (Portugal), da qual Willer é sócio. Flávio Bolsonaro estava cadastrado como “usuário master” — nível elevado de acesso e gerenciamento do dinheiro. Em 22 de maio de 2025, um mês após a primeira fase da Operação Sem Desconto, a funcionária do escritório de Willer, Fayla Zulmira Menezes, enviou e-mail ao Santander pedindo a desassociação da conta “Flávio Bolsonaro” do usuário master — e o banco confirmou a exclusão no mesmo dia. Em relatório revelado pela jornalista Malu Gaspar (O Globo), a PF escreveu que o acesso de Flávio à conta sustenta “a hipótese de uma participação societária de fato” — o sócio que não aparece no contrato.

O que dizem os envolvidos: a assessoria de Flávio afirma que ele “nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e que o e-mail prova que o cadastro era indevido. Willer nega ter compartilhado conta: “Não existe e-mail de minha parte e não existe essa conta.”

WILLER TOMAZ: QUEM É O ADVOGADO DAS BETS

Willer é um advogado criminalista de Brasília, amigo declarado de Flávio (“as nossas esposas são amigas, nossos filhos são amigos”). Ele é alvo da Operação Sem Desconto por suspeita de funcionar como “central financeira e patrimonial de políticos” — empresas que movimentam dinheiro, pagam despesas e administram bens de terceiros sem que eles apareçam como donos.

Os números sobre apostas, publicados por veículos diferentes, variam — e é importante registrar a discrepância:

Fonte

Movimentação em bets

UOL (30/09)

R$ 6,6 bilhões apostados em 18 meses (jan/2025 a jul/2026), segundo documentos da própria defesa; prejuízo declarado de R$ 188,5 milhões

Folha (30/09)

mais de 2.145 depósitos somando R$ 325 milhões e ~3.000 saques somando R$ 180 milhões na Blaze

Revista Fórum / Jornal do Brasil

movimentação de até R$ 13 bilhões em bets; perda de R$ 163 milhões em 2025 numa única plataforma

CPMI do INSS (Senado)

análise de RIFs do Coaf aponta que Willer movimentou R$ 45,5 milhões em transações atípicas


Willer alega ludopatia (vício em jogos) para explicar os valores — tese usada pela defesa numa ação de indenização contra a Blaze. A PF investiga se as bets foram usadas como mecanismo de lavagem: deposita-se dinheiro de origem suspeita, aposta-se e saca-se parte como “ganho de jogo” — um “pedágio” que limpa o dinheiro.

Elo adicional: a Folha revelou em 15/10 que a Cathedral, offshore na Ilha da Madeira e única acionista da Rede Loto — primeira bet licenciada no país, da qual Willer é dono junto com Jorge Barbosa Dias — pagou voos de Flávio Bolsonaro na Europa (trecho Lisboa–Nice, em 11/04/2025, contratado com a NetJets). Pelo menos três trechos entre Portugal e França, em abril e maio de 2025, foram pagos pela offshore, segundo a PF.

O ESQUEMA DO INSS: DINHEIRO DE APOSENTADO

O pano de fundo é a fraude contra aposentados: associações de benefícios firmavam convênios com o INSS para cobrar mensalidades diretamente da aposentadoria — sem autorização do segurado, com assinaturas falsas, autorizações inventadas e até voz falsificada. Em cinco anos, mais de R$ 6 bilhões foram descontados sem consentimento. O aposentado nem sabia que era “associado”.

A PF aponta como centro do esquema o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, preso desde setembro de 2025, e seu contador Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro. E aqui o documentário expõe as coincidências que a PF investiga:

  • Alexandre Caetano dos Reis é o contador do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (aberto em 2021).
  • A irmã dele, Letícia Caetano dos Reis, administra o escritório de Flávio desde 16/04/2021 — e disse à Agência Pública que chegou lá por indicação de Willer (fato confirmado em documento oficial da CPMI do INSS no Senado).
  • Willer defende o contador preso na Justiça.
  • A Bravo Grafeno (fábrica de capacetes de Flávio e do irmão Carlos) está registrada numa sala em Águas Claras (DF) onde também estão registradas pelo menos 16 empresas ligadas ao “careca”.
  • A empresa do careca também fez repasse de ~R$ 1 milhão a uma lobista ligada a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — que é investigado em três inquéritos no STF, mas não foi citado no relatório da PF que indiciou o careca nem indiciado/denunciado (a própria PF, em relatório de setembro, diz não haver indícios de envolvimento direto dele nos descontos).

Importante: até hoje não há investigação formal aberta contra Flávio no caso do INSS. Os elos acima são apontados pela imprensa e pela CPMI como indícios a serem apurados, não como conclusão.

O “LARANJAL”: A DOMÉSTICA QUE PRESIDE 14 EMPRESAS

O documentário e a investigação do ICL apontam o padrão de interpostas pessoas: Lídia Mazelli, 61 anos, aparece formalmente no comando de 14 empresas ligadas a Willer — incluindo a WT, que ficou com a mansão de Angra dos Reis. Quando a repórter bateu na porta, Lídia respondeu: “Não, eu sou doméstica aqui”. A WT também é dona da casa do senador, segundo o documentário. O jogador Richarlison reclamou publicamente no Instagram que perdeu na Justiça uma ilha em que investiu ~R$ 10 milhões, após suposta disputa envolvendo Flávio e Willer: “Flávio Bolsonaro e o tal do Willer Tomaz foi lá e em 24 horas pegaram a posse... Eu não recebi nada”.

A REDE VORCARO–KASSIO–WILLER

O “laranjal” se entrelaça com o caso do Banco Master que o SOL DO CARAJÁS já cobriu: a mesma empresa de Willer (Alcazar) aparece em sociedade com empresas ligadas a Daniel Vorcaro (jato executivo, mansão em Angra, apartamento em SP); Vorcaro está preso; e o ministro Kassio Nunes Marques — que hoje preside o TSE, justamente a corte que conduz esta eleição — é citado nas mensagens. Todas essas alegações seguem em apuração, com negativas dos citados.

O QUE DIZEM OS ENVOLVIDOS (NEGATIVAS)

Envolvido

Posição

Flávio Bolsonaro

Nega conta conjunta com Willer; classifica informações como falsas; diz que são apenas amigos

Willer Tomaz

Nega conta compartilhada, vínculo societário oculto com a Blaze e relação financeira irregular com o senador

Assessoria de Flávio

“Nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”

Willer (sobre os voos)

Alega ludopatia; defesa diz que movimentações foram por Pix e rastreáveis

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NOTA EDITORIAL: Este texto distingue fatos já publicados por veículos consolidados (existência dos e-mails, pedido da PF ao STF, voos pagos por offshore, documentos da CPMI) de hipóteses investigativas e alegações do documentário (participação societária oculta, uso das bets para lavagem). Todos os citados gozam de presunção de inocência e negam as acusações. Não há, até o momento, denúncia formal contra Flávio Bolsonaro. O SOL DO CARAJÁS acompanhará a decisão do STF sobre o pedido da PF e a tramitação da CPMI do INSS.

FONTES: UOL (10 e 30/09 e 10/10), Folha de S.Paulo (10 e 15/10), Estadão (10/10), Jornal do Brasil (10/10), Revista Fórum (10/10), Gazeta do Paraná (19/10), Opera Mundi (16/10), documento da CPMI do INSS (Senado Federal) e documentário “Revelando — O Laranjal”.

SOL DO CARAJÁS — Jornalismo Investigativo | Parauapebas/PA | Documento elaborado em 21 de outubro de 2026.

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