segunda-feira, 28 de maio de 2012

Memórias que não são do cárcere, e nem do cárcere privado

Como admirador e leitor de Graciliano Ramos e Antonio Gramsci venho exercitar aqui neste breve comentário também a minha memória, a diferença que a minha não é de situações e ambientes de cárcere, aos quais, os dois escritores acima citados escreveram talvez suas mais notáveis obra, ou seja, quando estavam na prisão. Longe querer ser ou ao menos se aproximar do que foram os dois, pois não me cabe aqui está fazendo isso. quero compartilhar uma memória que neste momento acredito ser interessante no contexto político e social de Parauapebas. E essas lembranças e memórias geralmente aparecem em anos de eleição onde os ânimos, a alegria e a tristeza de muita gente se movimentam e por último deixar uma interrogação básica.
Pois bem a tal memória me reporta ao ano de 2000. Lembro-me bem que naquele ano quando cursava a Série na Escola Eduardo Angelim e estávamos fazendo atividades de avaliação do terceiro bimestre daquele período letivo. Estávamos a poucos dias das eleições municipais, era uma campanha tensa entre a candidata BEL, que disputava a reeleição pelo PTB, campanha dela que ficou marcada, pois quem não se lembra do seu JINGLE de campanha é BEL é BEL é BEL... Bel tinha uma estrutura monstruosa, muita gente trabalhando nas ruas, muitos showmícios, a cidade vivia uma festa. Lógico que possivelmente o dinheiro público bancou boa parte do espetáculo. Por outro lado tinha o candidato CLAÚDIO ALMEIDA pelo PPS, que recebeu do deputado estadual na época FAISAL, o apelido de TATUZãO. CLÁUDIO e sua equipe de campanha fizeram do apelido um símbolo da campanha. Também tinha a candidatura do então PROFESOR DARCI pelo PT que a época era a candidatura que talvez representasse uma proposta de mudança mais radical. Havia também uma quarta candidatura que por motivos de força maior o titular da chapa teve que se ausentar e a mesma não conseguiu adquirir um volume e uma visibilidade mais densa. A disputa acirrada mesmo era entre BEL, que acabou eleita, e CLÁUDIO ALMEIDA. As outras duas candidaturas talvez se mantivessem mesmo por questões de resistência e de simbolismos políticos.
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Nota: O Sol do Carajás publica texto de um anônimo, vale a pena uma leitura!


Pois bem feito um contexto geral do município, vamos para uma situação talvez nucleada ou atômica, do geral para o particular, coisas desse tipo. Então, era por volta do mês de setembro e a gente daquela turma de oitava série e outras turmas também, acompanhando tudo aquilo que ocorria na cidade e a maioria lamentando, por ainda serem bem jovens e nem sequer tinham título de eleitor, para participar das eleições. Contudo, boa parte participava das atividades de campanha das chapas apresentadas a época, faziam campanha e dentro das suas limitações de ainda adolescentes a defesa do que acreditava ser a melhor proposta colocada naquele pleito. Era assunto do momento comentar os comícios que iam, os discursos, fazer piadas com o nome dos candidatos, o que candidato A ou B falou, etc., etc. O ambiente refletia o que a cidade vivia. Lembro que tinha uma professora, esposa de um candidato, que saiu com pouco voto, porém anos depois venceu e bem, numa campanha talvez mais intensa, alegre e bonita do que aquela que vivíamos no ano de 2000. Mas não cabe aqui agora lembrar isso, pois foi um fato posterior e talvez se o leitor quiser depois podemos também deixar nossa memória sobre esta.
A professora a que me refiro havia passado alguns meses afastada das atividades docentes por motivos de saúde e ficamos sobre os cuidados de uma outra professora e por volta do mês de setembro, como disse acima, a professora titular da vaga retornou a suas atividades e bem no dia de recolher um trabalho de avaliação da turma. Era uma euforia só, a cidade vivia uma apoteose induzida por uma campanha eleitoral. Para nós era um privilégio ter em nossa turma uma professora, que era uma primeira dama em potencial naquela época. Pois bem ao recebermos a mesma, após meses de afastamento, em um horário após o intervalo da merenda, onde muitas vezes aproveitávamos para fazer algumas atividades lúdicas e sempre após o término estava quase todo mundo ainda agitado e empolgado. No retorno percebemos que a professora estava em sala e recebendo os trabalhos que havíamos combinado de fazer com a professora que estava substituindo e entregar professora a titular que estava retornando naquele dia. O fato ocorreu justamente na entrega do referido trabalho, foi um fato simples, mas que pelas circunstâncias que a posteridade tomou, uma hora e outra me vem na memória e fica me instigando como as pessoas e a conjuntura como um todo mudam.
Ano eleitoral, a cidade fervendo, uma primeira dama em potencial em sala, lógico que numa turma escolar era inconcebível o assunto da campanha eleitoral não ocorrer, ainda mais em uma disciplina da grade das ciências humanas. Na entrega do trabalho estávamos lá, uns entregando outros apresentando seus motivos por não terem feito, era uma diversidade de situações. Nesse momento um aluno pergunta qual a opinião da professora sobre a campanha eleitoral, a mesma com seu temperamento bem acentuado, fato este que nunca tirou seus méritos docentes, respondeu de forma curta e grossa:
- Acho uma palhaçada, a única certeza que tenho é que meu marido é diferente dos outros. Não é ladrão!
Talvez a opinião dela era muito influenciada pelo fato de na época BEL está exercendo seu primeiro mandato de prefeita, CLÁUDIO era deputado estadual e ex- dirigente do Instituto de Previdência e Assistência os Servidores do Estado do Pará (IPASEP) e ela provavelmente vinha com ressentimentos do IPASEP, pois vinha de um tratamento que provavelmente o IPASEP, que CLÁUDIO tinha deixado o comando a pouco tempo, não lhe deu um tratamento digno que um servidor público, em especial um professor merece, numa hora tão difícil que é quando tratamos de nossa saúde. Ainda com uma carga de senso comum de acreditar que todo político em sua totalidade é ladrão. Para ela talvez o fato do seu esposo ainda não ter exercido um cargo político e está colocando seu nome a disposição da população lhe dava credibilidade de não ser um possível político ladrão. Até acho forte esse substantivo ladrão, mas para não empobrecer a narrativa e a memória não empreendi uma busca nos meus dicionários para encontra alguns verbetes sinônimos mais eruditos e bonitos.
Pois o tempo passou as coisas mudaram. Daquela turma de oitava série, hoje somos advogados, sociólogos, tecnólogos em informática, enfermeiros, fisioterapeutas, engenheiros, profissionais de nível médio, alguns acho que foram dizimados pela violência urbana, cada um procurou seu rumo. A cidade cresceu muito, nossa professora virou primeira dama depois, outros professores da época da nossa turma e da escola ficaram ricos. Com tantas mudanças ocorridas e 12 anos passados. Será que o marido da nossa professora, da longínqua oitava série do nível fundamental, ainda não é ladrão?

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